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dezembro 13, 2006

Comento que virou post, sobre o sentido de voto.

[comentário no "Blogue do Não", após alguma troca de ideias bastante civilizada. Fica aqui, assim mesmo, sem os inúmeros comentários anteriores (que já iam no 30º e qualquer coisa) e sem qualquer alteração adicional. Para mais tarde recordar e para não ter de repetir aqui, por outras palavras ou pelas mesmas, o porquê do meu voto SIM. Esta minha mania de ir para os blogues dos outros escrever, em vez de escrever no meu, às vezes dá nisto...].


Caro Joaquim,

No Sim, também cabem muitas opiniões diferentes, tal como no Não.

Por exemplo:

Eu sou a favor da despenalização do aborto até às 10 semanas.

Se o Sim ganhar em referendo e, posteriormente, se fizer outro referendo para alargar prazos, voto Não (voto não ao alargamento do prazo, não voto Não à despenalização do aborto).

Não posso estar a fazer futurologia e votar Não agora porque não quero correr o risco de vir por aí um alargamento de prazos.

Por outro lado, se o Sim ganhar, espero que se apliquem penas a quem não cumprir a lei (que diz, até às 10 semanas).

Claro que essas penas serão determinadas e aplicadas, ou não, caso a caso (como acontece com qualquer outro crime).

Senhoras como aquela que diz ter feito 20 abortos... Sinceramente, não aceito nem entendo, mesmo que os tenha feito todos até às 10 semanas!

Isto significa o quê? Que eu impunha um limite máximo de abortos por pessoa? Que estabelecia uma quota? A tal senhora fê-los mesmo sendo ilegais e iria continuar a fazê-los!

Quanto ao SNS financiar a realização de abortos.

Claro que custa (a mim custa-me) saber que existem tratamentos de doenças que não são comparticipados. Intervenções cirúrgicas que estão em intermináveis listas de espera.

Eu criaria outra mecânica... Taxas moderadoras com comprovativo de rendimentos. Parece-me que hoje em dia, quem faz um aborto paga-o (pouco ou muito, mas paga).

Se para doenças a sério (eu não entendo a realização de um aborto como um tratamento para uma doença) há quem paga e quem não paga, porque não fazer o mesmo com o aborto?

O aborto apenas seria gratuito para quem não tivesse forma de o pagar (essas pessoas são as que mais precisam de ajuda, as outras, como se diz, podem sempre ir a Badajoz...).

Resumindo:

Moral e eticamente: Acredito que é preferível eliminar um embrião ainda sem consciência de si, que gerar uma criança infeliz.

Acredito, também, que a decisão é privada e não pública (imposta pelo Estado).

POR ISTO, VOTO SIM

Legalmente: Até às 10 semanas acredito que nenhuma mulher deve ser condenada e que o acto não deve ser considerado crime e portanto (i.e. como consequência), feito ilegalmente.

Depois das 10 semanas (e é mesmo depois das 10 semanas porque também acho que deve existir um limite. Temos o poder para decidir sobre a vida de um embrião. Temos a responsabilidade de o fazer em tempo. E o tempo é este. Não é outro qualquer).

Para mim, todos os abortos feitos depois deste prazo devem ir a julgamento. A pena a aplicar (ou não) será definida caso a caso e todas as atenuantes serão consideradas (como noutro crime são).

PORQUE A PERGUNTA DIZ CLARAMENTE 10 SEMANAS, VOTO SIM.

Por opção da mulher... concordo! Como disse em resposta a um post lá de cima, considero isto como uma garantia de que nenhuma mulher aborta obrigada (pelo pai da criança, pelos pais dela).

Em estabelecimento devidamente autorizado.

Também concordo. Outro dos meus motivos (práticos, não morais) para votar Sim é a convicção de que o número de abortos ilegais diminuirá (não disse que deixavam de existir, nem disse que o número global de abortos iria diminuir).

Agora, se o aborto praticado num estabelecimento autorizado deve ser financiado pelo estado... Não concordo. Apenas concordo para os casos de extrema carência financeira.

Se continuo a votar Sim, mesmo assim... Continuo, porque é o preço que eu terei de pagar para almejar ver um flagelo desta sociedade grandemente minorado.

Quanto mais falo com defensores do Sim e defensores do Não que de facto falam sobre as coisas (não estou a referir-me às posições extremadas de vemos de ambos os lados, nem ao ataque puro e simples como melhor método de defesa) mais me convenço que na prática estamos quase, quase lá... a concordar com o que deve ser feito na prática... Sendo que num plano ético e moral as convicções são bastante diferentes.

Já agora (Mafalda e Joaquim), como estão a debater este assunto comigo desta forma tão produtiva e construtiva (Mafalda, não faço ideia de quantos comentários tiveram que vetar, mas os que aqui chegaram não foram de forma nenhuma violentos nem gratuitos), gostava apenas de perguntar o seguinte (e é uma pergunta genuína, sem truque!):

Como é que articulamos nisto tudo a questão dos abortos ilegais em vãos de escada (estou a falar só destes, daqueles que eu concordo que sejam inteiramente financiados pelo SNS e, também, por isso voto Sim)?

É que uma coisa é existir um crime, muitas vezes, sem julgamento sequer, outra é dizer que aceitamos abortos em vãos de escada (e muitas dessas mulheres acabam por ir para o SNS de qualquer maneira com as complicações posteriores).

Se não for despenalizado, o aborto tem de continuar a ser feito em vãos de escada.

Estou a perguntar isto, porque finalmente consegui ver respondidas muitas das dúvidas que tinha relativamente às posições do Não. Por vezes perde-se tanta coisa neste fogo cruzado e surdo...

Podemos não sair daqui com convicções diferentes daquelas com que chegámos, mas pelo menos saímos com a certeza de que conseguimos debater ideias.

novembro 01, 2006

Por opção da mulher

Insistir em meter o pai da criança ao barulho é uma falsa questão, carregada de hipocrisia e egoísmo, atirada, de forma demagógica para o debate, como manobra de diversão, fazendo, neste caso, as “mulheres do SIM” parecerem ainda mais pérfidas e os “homens do SIM” autênticos paus mandados, desprovidos de vontade própria.

Nesta batalha entre o bem e o mal vale tudo, até a tolice, envolta em elevada sapiência!

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outubro 16, 2006

Eu fiz um aborto!

E não concordo com o José António Saraiva, quando diz no Sol de 14 de Outubro que “Ora, dêem-se as voltas que se derem, toda a gente concorda numa coisa: o aborto, mesmo praticado em clínicas de luxo, é uma coisa má. Que deixa traumas para toda a vida”.

O meu aborto deve ter sido feito numa “Clínica de Luxo” (em Lisboa). Pelo menos, tive direito a duas consultas antes, duas consultas depois, análises ao sangue e à urina, ecografia e uma equipa composta por anestesista, enfermeira e obstetra.

Fiz o aborto quando estava grávida de 8 semanas, mas descobri quando estava de 6 semanas (estive numa pequenina lista de espera). Sabia o que era a pílula e o preservativo e isso tudo, não me posso desculpar com nada.

Tinha 24 anos. Já tinha acabado o curso. O namorado que esteve comigo nessa aventura é, actualmente, o meu marido e o pai da minha filha (que quisemos ter, muito bem planeada, já bem depois dos 30 anos).

O aborto é uma coisa má?
Pior é ter um filho sem o querer. Para o ser humano que dali havia de vir, pelo menos, havia de ser bem pior não ter sido desejado que nem sequer ter tido consciência de si (mas nunca vamos saber, não é verdade? Deixem lá, ele nunca soube que não ia saber). Porque amo verdadeiramente os meus filhos, só os tenho quando sei que os posso ter. Não sou pela morte, sou pela qualidade de vida.

Deixa traumas para toda a vida?
Não, não deixa. O que me havia de deixar traumas para toda a vida, seria ter tido um filho quando não estava emocionalmente preparada para o ter (sim, escrevi emocionalmente, não escrevi financeiramente). E o meu trauma havia de se reflectir num trauma dele, de certeza, e isso é que eu não iria aguentar.

Nunca me arrependi, nunca me senti culpada, nunca tive pesadelos! Limitei-me a fazer tudo o que podia, para não voltar a engravidar, enquanto não quisesse.

Também nunca pensei “Deixa lá! Tens o filho e tudo se vai arranjar”, porque os filhos são demasiado importantes para se entrar nessa do desenrasca e depois logo se vê.

Nunca pensei que era melhor ter a criança e dá-la para adopção, porque não brinco dessa forma com a vida das pessoas (é verdade, prefiro eliminá-los, escolher negar-lhes a existência, escolher, por eles, o que é melhor para eles antes de nascerem! É uma questão de responsabilidade. É remediar uma asneira, sem fazer uma ainda maior!).

Para além disto, defendo a eutanásia, já que acredito que cada um faz com a sua vida e a sua morte o que bem entende.

Mas não defendo o casamento entre homossexuais (embora a questão me passe um bocado ao lado) e espero que nunca possam adoptar crianças (aí sim, sou firme na minha convicção).

Não tenho paciência nenhuma para drogados, nem pena, nem nada. Mas também não tenho paciência nenhuma para os Barões da Droga. A droga é ilícita e não há meio de acabar. Podíamos experimentar outra solução... desde que os grandes produtores mundiais nos deixem!

Não sou de esquerda.

Não tenho qualquer atracção pela morte. Aliás, detesto-a (é o único inconveniente de se estar vivo).

Porque é que, de repente, estou (eu mais o meu aborto), no mesmo saco que os homossexuais, os doentes terminais e os de esquerda?

E os doentes terminais (que gostariam de optar pela eutanásia) têm de defender mulheres de t-shirt a dizer “Eu abortei”? Não podem ser contra o aborto?

Este artigo do Sol foi dos piores que li nos últimos tempos. Muito fraco. Há quem defenda o NÃO e o faça com bastante mais mestria (e sem baralhar, de forma tão irresponsável, tantas questões num texto só... e pequenino).

outubro 12, 2006

Mulher que fica sem emprego...

... Após regressar de Licença de Maternidade, o que é que diz quando vai a uma nova entrevista de emprego e lhe perguntam "Está desempregada porquê"?

1) O gajo que me foi substituir era melhor que eu, (sou incompetente e como tal, fui corrida)?
2) O gajo que me foi substituir é gajo, (tenho a mania da discriminação)?
3) Os tipos eram todos uns parvos e eu também não gostava nada de lá estar (sou conflituosa no local de trabalho)?
4) Quis vir para casa tomar conta da criança (e agora mudei de ideias, porque nunca sei o que quero)?

Há perguntas para as quais nunca tenho uma resposta "politicamente correcta".

Porque a verdade, verdadinha é que nunca gostei de lá estar. Quando me disseram que achavam que eu não ia voltar depois da licença (acharam porquê?) e me propuseram o "negócio" da rescisão amigável fiquei, é verdade, contente.

A minha sanidade mental melhorou muitíssimo, mas não posso dizer isto numa entrevista de emprego!
E só falta uma hora e meia.

Cheira-me que este post, não tarda nada é apagado!

Porque eu queria mesmo era dizer que, de facto, há mulheres que ficam sem emprego porque tiveram filhos. De facto, cada vez têm menos filhos. De facto a população está a envelhecer. Qualquer dia há mais velhos que novos. Qualquer dia somos penalizados pelo Estado porque não queremos ter filhos, mas continuamos a correr um grande risco no mercado de trabalho se os tivermos!

Porque as crianças adoecem e os infantários não as querem lá! Porque durante um ano temos direito a trabalhar menos duas horas por dia. Porque temos de ir buscar os putos à escola. Porque temos uma vida para além do trabalho e é complicado marcar reuniões para as 8 da noite ou ao sábado no Porto!

As mulheres com filhos são uma chatice para as empresas. Por isso, as mulheres (que precisam de ganhar dinheiro, por causa da economia familiar) têm cada vez menos filhos (não é só por isso, também é porque os ordenados são uma lástima e os filhos são caros).

Como as mulheres têm cada vez menos filhos, temos um buraco na Segurança Social (não é só por isso, mas isso também ajuda).

Mas a inteligência saloia e a curto prazo dos nossos brilhantes gestores continua a achar que assim é que se optimizam as empresas. Até não haver pessoas para trabalhar... daqui a uns séculos. E a oferta ser menor que a procura, e se inventarem ainda mais máquinas para substituir cá a malta.

Quero ver é se também são as máquinas que vão comprar os belos produtos que as nossas empresas vão querer vender!

Mas deve ser de mim (assim à bruta e sem citar grandes pensadores e correntes económicas), porque não devo estar a ver bem e o Senhor Mercado (esse grande C.) vai resolver tudo (e quem se F. sou só eu!).

Estou mais que furiosa (óptimo estado de espírito para uma entrevista) e mais que atrasada (deixa lá ir fazer a maquilhagem e o cabelo), pelo que vou indo...