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maio 22, 2007

Livros e Pés

Hoje foi “Livro no Pé”, ou está a ser… que entretanto vim aqui fumar um cigarro e aproveitei para escrever isto!

“Livro no Pé” porque pões o livro no chão e o pisas. Com um Pé, até repararmos, com os dois, aos saltinhos, se te dizemos que não… que os Livros, só com as mãos. Ris.

Que posso eu pensar? Pensar, sim, porque dizer, digo-te que não.

Penso que, de facto, alguns são mesmo com o Pé! Não valem nada, não é por serem Livros que temos que os tratar com respeito.

Mas penso isto, apenas porque sei que gostas dos Livros… e que o Pé é só por outro acaso… o do desafio da autoridade. Isso também me sabe bem. Sabe-me bem que gostes dos livros e que lhes ponhas o Pé. Espero que entendas que, mesmo assim, te vou continuar a dizer que não!

Está a crescer e eu, cada vez mais, a sentir-me mãe. Também aprendeste a acender e apagar as luzes e a gostar de o fazer!

Parabéns!

É isto que se pensa dos filhos. É isto que se diz aos filhos, sempre tão diferente daquilo que se pensa. Espero nunca te dizer algo diferente daquilo que sinto. Porque o que sinto é orgulho e amor por ti e não posso nunca pensar que devo dizer diferente!

dezembro 03, 2006

No dia em que a criatura nasceu...

Fui ao Carrefour comprar um caixote do lixo pequenino para ficar no nosso quarto. Pareceu-me necessário para guardar as fraldas sujas. Comprei mais umas coisinhas que me pareceram igualmente necessárias para preparar convenientemente a chegada do bebé.

Depois, fui ao AKI e comprei um vaso para a planta da casa de banho.

Fui para casa com os três saquinhos na mão. Quando, depois de ter arrumado tudo, me sentei no sofá, senti uma coisa diferente.

Não era dor. Não era ela a mexer. Não sei explicar, mas sei que pensei que aquilo tinha, de certeza, alguma coisa a ver com o nascimento da criaturinha. Sorri.

Já estava farta da gravidez, já pesava 80 quilos, já não me conseguia mexer e já estava na 39ª semana (39 semanas completas +3 dias). Fiquei feliz!

O marido chegou a casa. Fomos jantar ao restaurante lá da rua. Voltámos para casa. Ele foi jogar WarCraft no computador e eu fui esticar-me no sofá para ver televisão (ou fui ver televisão para me esticar no sofá?!).

Fiquei a fazer zapping até que, por volta da uma da manhã, comecei a ver um filme na 1. Não me lembro nem do filme, nem dos actores, nem do assunto, nem de nada (embora tenha passado o filme todo a prometer a mim mesma que não me ia esquecer porque tinha a sensação que estava a ser o último que eu via com a criatura na barriga).


Estive aquele tempo todo com a impressão de que ia ter o período. De vez em quando, lá vinha o apertão. Depois passava. Depois vinha. Depois eu mudava de posição. Depois vinha o apertão. Depois passava. E eu com demasiada preguiça para me levantar.

O filme acabou! Fui à casa de banho. Um fio muito pequenino de muco castanho claro no papel (…)

- Marido!!!!!! Acho que a nossa filha está a chegar!!!!!
- Hummm?
- A nossa filha!!! Estou há duas horas com dores de período e olha para esta mancha castanha aqui no papel.
- Hummm? Não vejo nada no papel! Não te faz bem estares assim tão ansiosa. A médica disse que ela só nasce no dia 2. Hoje é dia 29. Tem calma!
- Mas, e as contracções? E esta mancha? Acho que devíamos ir à maternidade … pelo menos ver se está tudo bem.
- Ir à maternidade perder tempo! Já viste que horas são? Amanhã tenho de trabalhar!
- Tens … se ela não nascer entretanto!
- E pronto! Olha, deixa-me acabar aqui esta missão. Vai para a sala, leva um relógio e cronometra o intervalo entre as contracções. É assim de se deve fazer.

Fui para a sala, eu mais o telemóvel, por causa do cronómetro.

Sete segundos. Cinco segundos. Dois minutos. Cinco minutos. Oito minutos. Três minutos. Cinco minutos. Um minuto.

- Alice!!!! Isso não é nada. As contracções aparecem com intervalos regulares. Vai lá medir outra vez … Estou mesmo a acabar isto.

Sete segundos. Cinco segundos. Dois minutos. Cinco minutos. Oito minutos. Três minutos. Cinco minutos. Um minuto.

- Pronto! É para a maternidade que queres ir, não é? Então vamos … que perda de tempo! Mas, queres, vamos …

Fomos! Às quatro horas da manhã. Não lhe disse para levarmos a mala, porque achei que ia achar desnecessário e eu já começava a achar que talvez tivesse razão.

Maternidade deserta. Marido a resmungar. Eu a sorrir.

Se estás com vontade de rir, é porque não te dói … Não sei o que é que estamos aqui a fazer!
Pois, não dói muito … até é bastante suportável!

Vem o enfermeiro, vou para o CTG, volta o enfermeiro, vou para o toque.

Doeu! MUITO. O colo do útero ainda não tinha descido e ele, mesmo assim, precisava de lhe tocar. Doeu! MUITO.

Ainda não tem dilatação nenhuma. São uns 2 dedos! E com o colo do útero nesse estado, isso ainda demora um ou dois dias!

Volto para o CTG, para verem novamente as contracções. Aparece outro enfermeiro.

As contracções estão bem fortes e muito próximas!!! Saia lá daí e venha cá, que preciso de a examinar!

Outro toque não!!!! O seu colega já me fez isso à 15 minutos atrás!!! Está, de certeza, tudo na mesma … Ele disse que não havia dilatação e que o colo do útero ainda não tinha descido!!!!

Tem razão! Leve o microlax, esta bata e este saco e vá ali à casa de banho. Ponha o microlax e vista a bata. A sua roupa vai para o saco. Depois venha ter comigo para preenchermos aqui o seu processo clínico.

Tenho razão? Nestas coisas, nós nunca temos razão e fazem-nos sempre tudo outra vez!

TENHO RAZÃO??? PONHO O MICROLAX??? VISTO A BATA??? PONHO A MINHA ROUPA NO SACO???

Socooorrroooo!!!

Acalmei. Pus o microlax. Vesti a bata. Coloquei a minha roupa no saco. Fiz o microlax e saí.

O marido vai ali pelas escadas da direita e nós vamos por aqui. Já nos encontramos lá em cima.

Fomos para o bloco.

Isto já é a sala de partos?
Sim.
E essa agulha enorme é para quê?
Para colocar o cateter.
E vai-me espetar a agulha onde?
No braço.
Bolas! Nem me mostre isso … vou virar a cara para ali e depois diga-me quando já puder olhar.

Está com contracções e tem é medo da agulha????
Aiiiiiiiiiiiii!!! Isso dóiiiiiiiiiiii!!!
Rebentei a veia! Ó colega, traga aí gaze e álcool. Com uma veia tão boa e lá fui eu falhar!
A veia? E isso é perigoso??? E está a conseguir estancar o sangue??? E é muito sangue??? Posso ficar sem sangue e ter de levar uma transfusão???
Hã? Falhei a veia, vou só por aqui um penso e já tento noutra!!! Calma. Pronto, já está!

Deite-se ali de barriga para cima, para eu a ligar ao CTG.

Pronto! Agora fique aí deitada. Vou chamar o marido.

Afinal é mesmo para ficar cá? Não é, pois não? Vão só fazer mais uns exames? O seu colega tinha-me dito para a levar para casa … É mesmo hoje?! Vai mesmo ser agora?! E o que é que eu faço? O que é que é preciso? É mesmo agora? A sério?

Umas quantas vezes, durante as 14 horas do meu trabalho de parto, ele ainda achou que aquilo tinha tudo sido um engano e que, afinal, era para voltar para casa...

novembro 27, 2006

...

Dúvida existencial de uma mãe complicada às voltas com o Livro do Bebé.

Quando é que podemos dizer que a nossa cria já anda:

A) Quando, volta e meia (umas 10 vezes por dia) se esquece que não está agarrada a nada e anda sozinha até ao seu destino (uns metros... 2, mais coisa menos coisa)?

B) Quando, conscientemente, começa a andar até ao seu destino?

Escrevo, já, no livro do bebé que já anda, ou espero mais um bocadinho?
Isto parece aquela do "Se cai uma árvore na floresta e não está lá "nada" que consiga ouvir, existe som ou não"? Ela anda quando anda, ou quando tem consciência de que anda?

agosto 03, 2006

Ontem

Ontem, enquanto a minha filha tentava não adormecer e chorava desalmadamente por alguém que lhe viesse roubar o imenso sono que tinha, para que ela tivesse força para brincar mais um bocadinho, fiquei a olhar para ela.

Fiquei com medo que aquele bebé pequenino um dia se zangasse comigo por algo mais que eu insistir em não lhe roubar o sono.

Quando isto acontece, este medo de quando ela crescer, fico com frio e sinto que estou mergulhada em água gelada, debaixo de chuva, perdida numa floresta em pleno Inverno.

Não consigo, por mais que tente, deixar de sonhar com o futuro que gostava que ela viesse a ter. Penso que gostava, acima de tudo, que ela tivesse a capacidade de se apaixonar. Que tivesse, pelo menos, uma grande paixão na vida, cuja recordação, mesmo que essa paixão se acabasse, lhe ficasse para o resto da vida como uma memória agridoce de que um dia esteve viva, completamente viva!

Mas, não consigo pensar só na vontade que tenho, que ela se apaixone! Tenho que a imaginar a viver uma grande aventura com um homem lindo, sensual, inteligente, interessante, culto, justo e generoso, forte, decidido, confiante, adulto …

Imagino-a num país exótico … Imagino-a a tomar um gin tónico no Kilanguni Lodge depois de ter percorrido tsavo até a poeira de África lhe ter ficado entranhada na pele! Imagino que o homem lindo por quem se apaixonou está com ela. Vieram de Nairobi para o fim-de-semana. São médicos, são jovens e estão no Quénia com a AMI.

Imagino-a a defender causas. Imagino-a a ter uma vida livre e diferente, todos os dias. Imagino-a a ter o planeta por sua casa e a viajar muito, com a perfeita noção de que pode estar, hoje, em Londres e, amanhã, no Camboja.

Imagino que vai adorar o que faz e vai considerar uma bênção que lhe paguem, ainda por cima, para o fazer.

Imagino que vai ter muitos amigos, de muitas raças, de muitos países e vai ter a consciência perfeita do que é viver neste planeta perdido no universo, tão único e tão igual e, ao mesmo tempo, tão diferente.

Imagino que vai ter dinheiro. Vai ter o suficiente para nunca se ter de preocupar com dinheiro! Imagino que vai vestir bem e vai ter uma casa bonita. Imagino que vai ter bom gosto mas que não se deixa levar pelo marketing!

Imagino-a alerta, interessada, boa conversadora, simpática, meiga mas decidida!
Imagino-a a gostar muito de mim. Imagino-a a ter-me num lugar muito especial do seu coração e a contar-me todas as suas aventuras e a perguntar-me o que é que eu penso!

Se me perguntassem:

- O que sonhas para a tua filha?

E eu respondesse, apenas, que desejava que fosse tão feliz como eu em todos os aspectos da sua vida e que, quaisquer que fossem as suas escolhas, as fizesse sempre, tendo em conta, aquilo que realmente queria…!

Mas não, não é isso que eu respondo! E depois fico com medo que ela um dia se zangue comigo por algo mais que insistir em não lhe roubar o sono!

Talvez, até, eu consiga sentir exactamente quais os motivos pelos quais tenho medo que ela, um dia, se zangue comigo!