Tinha mesmo de ser o primeiro post, embora atrasado muitos anos (estava no topo da lista dos pendentes, atravessados na garganta, de antes de eu ter um blog! Sorry!)
Fico ainda mais contente de estar a escrever isto depois de o homem já estar morto.
Parece-me mais a sério, mais formal, dizer mal de um homem morto! Por princípio (da nossa hipocrisia) quando se morre perdem-se os defeitos. Quando isso não acontece é porque é mesmo grave.
Assim, fico ainda mais contente de estar a escrever isto depois de o homem já estar morto!
1) O João César Monteiro resolve fazer um filme cego (quando não tem som é mudo, quando não tem imagem é cego, certo?).
É como um escritor escrever um livro sem letras (pronto! Na página 3, 27, 56 e 324 aparecem umas frases... e, claro, acompanha o livro sem letras um CD com músicas dos Dexys Midnight Runners cantadas pelo Camané, a Marisa e a Dulce Pontes). Não sei se se chamaria aquilo um livro, mas, não existam dúvidas, o JCM fez um FILME.
2) Faz o filme recorrendo a subsídios do Estado (i.e. cá a malta).
É assim que está definido e pronto! (...) Dava mais uns quantos postes.
3) O público português (os que foram ver e os que ouviram dizer!) não gosta do filme e o mesmo revela-se um flop de bilheteiras (embora nenhum realizador português se preocupe com isso).
Parece que, em nome da Arte, alguns vivem de subsídio em subsídio. O objectivo último (e único?) é conseguir mais um subsídio e não, ter sucesso na profissão que escolheram (sim, porque aquilo, que eu saiba, é uma profissão, e ter sucesso significa conseguir levar pessoas ao cinema). É claro para toda a gente que os profissionais que trabalham para aí nas empresas têm de ser rentáveis, têm de fazer coisas úteis, têm de ser produtivos e gerar receitas ou então vão para o olho da rua. Nas Arte, em Portugal, não! A cultura é algo abstracto, de difícil entendimento para o tuga médio. Ninguém vai ao cinema português porque é tudo burro. E, aqueles filmitos têm de continuar a ser feitos, porque são cultura e se não se fizerem ficamos sem cultura e ai caramba que ninguém vem ao cinema ver filmes portugueses e ai caramba que não temos dinheiro para essas grandes produções COMERCIAIS americanas e ai caramba que mesmo que tivéssemos não as fazíamos porque isso seria deturpar o conceito de cinema e os americanos não percebem nada do que andam a fazer.
4) Alguns intelectuais portugueses (os que foram ver e os que ouviram dizer!) gostam.
Um filme sem imagens, um livro sem palavras, uma música sem som, um quadro sem tela. O exercício de estilo de retirar a uma coisa tudo aquilo que a define e, mesmo assim, conseguir manter essa mesma coisa é tentador. A sério que é, mas ele que vá fazer isso com o dinheiro dele... O van Gogh (podia ser outro qualquer) não teve uma vida de cão? Porque é que este senhor tem de ser pago logo à cabeça?
5) O público português acha (assim, mesmo à tuga, terra a terra, pão pão queijo queijo), que aquilo não é um filme, porque AQUILO não tem imagens. LADRÃO! Enganou-nos! Nós a dar o nosso dinheiro para um filme e afinal ele não fez um filme!
É porque somos burros... se fosse a Missão Impossível ou a Guerra das Estrelas ou o Indiana Jones já gostávamos! Somos burros cumó caraças, filhos da mãe! Atão não se VÊ logo que aquilo é um filme? Se apenas as mentes mais brilhantes alcançam isso, azar... ninguém nos manda ser burros.
6) Resolvem (os media) perguntar ao JCM o que é que tem a dizer sobre o assunto e, eis senão quando, EU QUERO QUE O PÚBLICO PORTUGUÊS SE FODA!
Eh! Pá! O que é isto? Não basta pagar subsídios para filmes cujo valor acrescentado para a Cultura Nacional me parece, no mínimo, duvidoso, ainda sou insultada por um senhor que se está a FODER para o público que deveria querer ter? E, ainda tenho de aturar homenagens do ESTADO PORTUGUÊS a um tipo que nos mandou FODER a todos e que entretanto morreu e parece que deixou uma grande obra? Que merda é esta?
É o País das Maravilhas... Porque se fosse um país à séria, com pessoas com espinha dorsal e uma pinga de orgulho, o tal senhor era riscado do mapa... Para sempre!
E, no meio disto tudo, o GRAVE não é ele ter dito o que disse. O GRAVE é a nossa reacção ao que ele disse. O GRAVE é a nossa atitude “de merda” face à generalidade das coisas que nos vão acontecendo (e daí, talvez, este post não estar assim tão atrasado. Infelizmente).